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“Amor à camisa… mas que saudade!” – Contra o futebol moderno.

22 set

De norte a sul, clubes tornam-se, da noite pro dia, mais uma filial da Red Bull. Aperta-se o cerco à festa das torcidas e, cada vez mais, coloca-se a tradição do futebol abaixo dos interesses comerciais. A espetacularização capitalista de um dos esportes mais anárquicos do mundo – o qual se joga com garotos na rua e uma bolinha feita de papel ou meias – transforma o futebol em uma mercadoria consumida de forma cada vez mais passiva.

O futebol não é uma ilha, alheio a sistemas econômicos e políticos. Tampouco é democrático, como gostariam os fãs do jogo. No entanto, a gradual transição dos clubes para empresas, a lógica de mercado como modelo de gestão e toda a rede milionária que envolve a mídia e o marketing geram muitos lucros. Mas ao torcedor, apaixonado pelo calcio, tem um alto preço.

 Na Dinamarca, torcida exibe bandeirão com os dizeres: "Por que tudo tem que ser tão chato e cinza?"

Na Dinamarca, torcida exibe bandeirão com os dizeres: "Por que tudo tem que ser tão chato e cinza?"

Os ingressos são cada vez mais caros e o horário dos jogos fica à mercê da vontade dos senhores da televisão. Na Europa, já são comuns os protestos pelos jogos em dias atípicos (segunda-feira em Portugal e Espanha ou sábado na Itália, por exemplo), também causados pelos mais arbitrários interesses comerciais. Mas talvez o maior prejuízo de todo esse processo seja o fim do amor à camisa, que é sem dúvidas o ingrediente mais passional e valoroso do esporte bretão.

Exemplos recentes não faltam, como a venda do Grêmio Barueri para a cidade de Presidente Prudente, alterando inclusive o nome do time (transação que parece estar fazendo escola, inclusive), ou as medidas policiais que geraram a campanha internacional “Pirotecnia não é crime”, encampada por diversos grupos de torcedores. As cadeiras substituem os degraus e, se depender dos poderosos, a atividade de ir a um jogo de futebol, lazer historicamente popular, se equiparará a ir a um espetáculo de teatro ou cinema, tendo seu acesso restrito aos que têm condições financeiras para tanto.

Os torcedores, dentro de seus direitos e representando o interesse das classes populares, se manifestam na tentativa de chamar a atenção e defender o que não pode ser nem vendido, nem comprado: a tradição. Cabe ao público levar o debate adiante, inclusive fora de campo, a fim de refletir questões sociais. Enquanto isso, o futebol continuará sendo a paixão dos torcedores, porém crescerá, à mesma medida que o número de clientes do pay-per-view, a quantidade de saudosistas e nostálgicos. Estes se lembrarão de seus eternos ídolos, que amavam a camisa que vestiam, e das festas nas arquibancadas, nas quais não se distinguia cor, raça, credo ou bolso.

Protesto da torcida do Salzburg, da Áustria, contra a Red Bull.

Protesto da torcida do Salzburg, da Áustria, contra a Red Bull.

Torcida do Sparta Praga em protesto contra o futebol moderno

Torcida do Sparta Praga em protesto contra o futebol moderno

Mais manifestações na Europa

"Não. Nossa resposta ao vosso futebol", dizem os italianos.

A torcida do Rayo Vallecano, da Espanha.

“Amor à camisa… mas que saudade!”