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Sobre a rua

10 set

cidade escura

então o professor de Semiótica Textual e Visual pediu para nós lermos um trecho do livro “João do Rio”, que falava sobre o conceito de rua, e desafiou-nos a (d)escrever a rua.  Uma rua qualquer, de nossa escolha.

acabei passando uma tarde de quarta-feira muito agradável mergulhando no  texto do livro e recomendo que os leitores deste blog que tiverem o gosto pela boa literatura ou interesse pela conceituação de “rua” que acessem o link para lê-lo também.

rua (paris, fr)

pois então decidi escrever um texto que não descrevesse fisicamente uma rua, pura e simplesmente. queria escrever sobre essa relação antropológica das ruas na cidade, ainda numa perspectiva sociológico e política até certo ponto. acabei por pegar um caso sério de uma rua da minha cidade natal, São Carlos (SP).

resolvi, então, postar o texto no covil de minha guerra espiritual – este blog.

sem mais delongas, visto que já me arrependi de uma introdução tão extensa, o texto.

Rua do mérito e da falta deste: a da tortura e a da libertação

Felipe Bianchi dos Santos

O simbolismo é, há milênios, uma característica forte da composição antropológica, cultural e estética da sociedade como um todo. Os signos revelam condições para além da superfície da realidade humana, trazendo à tona fatos e evidências do que  foi, se pensou, se viveu e se escreveu em páginas não-publicadas da história. É mais ou menos assim com o nome das ruas, essas entidades vivas e  “almadas”.  Quantas personalidades são percorridas por uma multidão desatenta, quantos seres humanos que alguma ação realizaram para ter o status refletido numa placa de rua não são pronunciados por essa mesma massa as vezes transformando o nome próprio em substantivo comum?

A meritocracia instaurada pelo poder público na tarefa de dar nome às ruas é nada mais que um aparelho burocrático que espelha a ordem socioeconômica, em termos hierárquicos, da sociedade em que a rua está. Ah, a rua. Caminho que origina tudo e finda tantas outras coisas e eventos. A rua, que expressa emoções e emana sensações, que é testemunha ocular, casi-onisciente da história humana local, rotulada por um nome qualquer de figura política influente no lugar, seja da Prefeitura, da nobreza, dos tempos de República ou de colônia. A velha mania de homenagear homens públicos, que raramente envergam, na história que outras ruas viram no passado, as glórias que a História Oficial degenera para premiar-lhes com os louros do reconhecimento social estampado, por exemplo, na placa da esquina do quarteirão ou na lista telefônica.

Foi assim que me chamou a atenção o caso de uma rua da cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, que por sinal é minha terra natal donde vivi quase 19 anos ininterruptos de minha vida. Pois bem, à rua. Na Vila Marina, zona norte da cidade que se situa entre a tranqüilidade do interior e a modernidade da metrópole, havia uma rua comum. Comum porque seus moradores nada tinham de especial com ela que outros moradores de outras ruas não tenham com as suas; não sofrem mais nem choram menos que estes as misérias e angústias da vida, nem festejam mais ou celebram menos as trapaceadas que se dá na vida para encontrar força pra sorrir sinceramente. Mas diferente de outras ruas na simbologia. Trata-se da Rua Sergio Fernando Paranhos Fleury, ou seja, a Rua da Tortura. A rua que leva em seu peito e bandeira o delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) dos “anos de chuva” da história recente do país. O nome do que matou Marighella e torturou centenas de sonhadores de uma possível democracia e justiça social. Como caminhar livre pelas alamedas desta rua sangrenta?

Por muitos anos o conservadorismo cínico que infestou o poder público da cidade manteve, como se nada estivesse fora de lugar, o nome do torturador lá. A atitude transpassa a barreira do mau gosto, podendo ser, com razão, compreendida como ofensa a própria integridade humana desejosa de liberdade.

Pouco fez o povo para mudar essa historia. Provavelmente ignorante quanto a essa parte obscura da história política nacional (obscura no sentido de conhecimento e transparência pública, pois considero dubitável dizer que já houve alguma época clara, cristalina e brilhante na história política nacional), porém inocente e devidamente interpretado como vítima, ainda que passiva por vezes, das trevas da educação e da informação de acesso massivo no país.

Já horas depois de estourar o prazo do bom senso pra mudar a história, à luz do dia 12 de maio de 2009, alguns vereadores, impulsionados por abaixo-assinados e manifestações no meio acadêmico (tendo seu seio na Universidade Federal de São Carlos, situada a poucos quarteirões da rua do descaso) decidem por virar essa página e tirar o título de dono da rua das mãos ensangüentadas e brutas de Fleury do Esquadrão da Morte. Como está em pauta a busca pela “memória e verdade” da época negra da Ditadura Militar no Brasil, tiveram este grupo microrrevolucionário encabeçados por políticos do “novo” Partido dos Trabalhadores a feliz e oportuna idéia de homenagear Dom Hélder Câmara, figura importante na luta pela democracia e liberdade do povo. Bispo católico que se despiu de vestimentas conservadoras e empunhou os estandartes libertários dentro da Igreja, o nordestino foi um dos grandes defensores dos direitos humanos durante os “anos de chuva”.

Tudo muito bem, cerimônia de caráter político realizada, nome da rua trocado e as nuvens negras da história que rondavam a Vila Marina se esfumaçam e somem no horizonte.  Agora a homenagem ao bispo – que chamaram santo por dar comida aos pobres e comunista por questionar o porquê da pobreza – cai melhor até para os não-religiosos que reconhecem que, quando o assunto é nome de rua com nome próprio de gente, que seja ao menos digno e merecedor por parte do povo que as vive, as habita e as ama, não dos burocratas das plaquetas azuis pregadas ao  alto das esquinas da cidade.

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião. Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. O mesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. (João do Rio)

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