“o que separa o velho do novo…” no mundo da bola

9 nov

Não quero regra nem nada
Tudo tá como o diabo gosta, tá,
Já tenho este peso, que me fere as costas,
e não vou, eu mesmo, atar minha mão.

O que transforma o velho no novo
bendito fruto do povo será.
E a única forma que pode ser norma
é nenhuma regra ter;
é nunca fazer nada que o mestre mandar.
Sempre desobedecer.
Nunca reverenciar.  (Como o diabo gosta – Belchior)

por Felipe Bianchi

Belluzzo com torcedores na Ilha do Retiro, em Recife.

Luis Gonzaga Belluzo é um dos mais importantes economistas e pensadores brasileiros desde o século XX.

seu gabarito inclui diversos feitos, trabalhos e prêmios. desde a década de 60.

hoje, Belluzzo é presidente – querido e apaixonado – da Sociedade Esportiva Palmeiras, que é o clube do coração deste blogueiro que vos escreve. Continue lendo

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Artigo sobre a piada (de mau gosto) democrática do sistema político brasileiro

4 nov

o seguinte texto é na verdade um artigo produzido por mim para as aulas de “Redação em Jornalismo II”, ministradas pela professora Adriana Bravin, na Universidade Federal de Ouro Preto.

como faz tempo que não posto aqui – e tenho tido pouco tempo, na verdade, para atualizar o blog -, publicarei o artigo que produzi na Universidade.

Democracia à venda, compra e permuta

por Felipe Bianchi dos Santos

Se alguém, por mais ingênuo que seja, pensa que as eleições só começam no ano que ocorrerão, certamente não tem acompanhado o flamejante noticiário político do país. As cartas eleitorais já estão sendo dadas e, infelizmente, o repetitivo quadro, que persiste dominando o sistema político brasileiro, vai se firmando novamente. De um lado, o PT, defendendo a continuidade de um projeto conciliador, longe de suas tradições de esquerda. Do outro, o PSDB, tentando recuperar o poder que os adversários conquistaram. No meio, esbarrando uns nos outros, a centena de legendas e siglas que formam uma interminável corrente que une, muito além de “ideais” e “posições”, a manutenção do poder político.

O dito de Lula, que tanto causou polêmica nessa semana, de que “se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão” parece piada. Mas não é. Afora indignações de setores religiosos ou qualquer reação do tipo, podemos afirmar e nos preocupar com a realista e sincera metáfora do presidente.

O governo e seus representantes calcam cada vez mais seu discurso em princípios democráticos, vangloriando-se de o país, que ainda é jovem no cenário histórico global, estar alcançando um estágio maduro de sua democracia. O curioso é que o Senado enfrentou recentemente  uma turbulenta crise institucional, reverberada principalmente pelo caso Sarney. Ademais, a alternância de velhos nomes nos cargos políticos, como o de Fernando Collor e do próprio Sarney, agride o argumento democrático. Nas eleições, que são consideradas algo semelhante a um “ritual da democracia”, as contradições são escancaradas: a disparidade de tempo no horário de propaganda eleitoral de partido para partido, a necessidade de patrocínios empresariais como parte do jogo eleitoreiro e principalmente a obrigatoriedade do voto.

Além disso, mesmo que não esteja na pauta do debate público, o próprio modelo eleitoral presidencialista, de uma democracia representativa ao invés de participativa, deve ser posto em xeque. Cada vez mais a máquina pública é apropriada pelos governantes, irreconhecíveis em relação a suas antigas e desbotadas bandeiras, e o estado de bem-estar social minimizado (à grosso modo: os pesados impostos não são revertidos em benfeitorias sociais para as quais são destinados).

Falando em bandeiras desbotadas, e inegável a perda de identidade dos partidos brasieliros. O melhor exemplo é o PT. O partido vive clima de eleição presidencial interna, que ocorre no fim de novembro, e a disputa é óbvia: os que defendem o “novo PT” versus os que desejam resgatar o espírito revolucionário do partido. O PMDB esbarra nas divergências quanto ao lançamento de candidatura própria ou aliança com o PT. Já o PSDB precisa definir sua tática através da escolha de Serra ou Aécio. Mas, no plano geral do confuso pluripartidarismo canarinho, todos correm atrás da garantia do poder político. Custe o que custar.

Jogos, trapaças e 2016 canos fumegantes.

5 out

então, como todos já sabem – e esse blog nem pretende dar tratamento de notícia ao tema-, o Rio de Janeiro sediará a Olímpiada – o maior evento poliesportivo do mundo.

manifesto, aqui no blog, minha posição contrária à realização da Olimpíada no Brasil. e as razões, que irei expor logo mais, vão além da tragédia-anunciada (e tradição nacional) dos desvios de verba, das irregularidades nas licitações à empresas e todo o jogo de bastidores que certamente enriquecerão pessoas, físicas e jurídicas.

é óbvio que, numa posição de consumidor e espectador passivo, é maravilhoso termos a Olimpíada, esse evento histórico e de magnitudes e importância ímpares na história da humanidade, no nosso país. legal ver o desfilar, nas alamedas do povo brasileiro, dos estandartes do mundo todo, sendo carregados por semblantes de seres humanos realizados ao participarem de um acontecimento que remete ao universo glorioso da “paz e cordialidade entre os povos”.

mas numa posição de cidadão crítico à política nacional e internacional, com uma opinião particular, claro, considero uma lástima ao país. não ao país do governo, o “país de todos”, cheio de projetos e roupagem de democracia e desenvolvimento, de amparo e assistencialismo. falo do país que empurrou os negros para as periferias, que oprimiu os imigrantes operários, que reprime os sonhadores e que, submetido à ordem global do capital, sustenta um sistema do medo e não de esperança (ah! a classe média…).

foto por Marcia Foletto (oglobo.com)

foto por Marcia Foletto (oglobo.com)

o país comemora ter saído da crise ileso (mesmo com milhares de trabalhadores perdendo o emprego… vai entender). seus dirigentes e capitalistas vêem a nação prosperar economicamente. do governo, se esperaria naturalmente que o bom momento econômico, aliado aos pesados impostos que paga o contribuinte (eu, você e mais cerca de 183 milhões de pessoas), traga investimentos satisfatórios na educação, saúde, transporte e claro… infraestrutura. mas em contra da lógica do bem estar social, a eterna bandeira liberal da “geração de empregos” está mais uma vez hasteada no topo da pirâmide social brasileira. além disso, o argumento da melhoria na infraestrutura carioca é propagada – e aceita! – como uma justificativa e como benefício da realização dos jogos aqui. leia-se: do investimento de muitos milhões no evento e na capital do estado do Rio de Janeiro.

"sol e lucro para os ricos; violência para os pobres'

nada se aprendeu com o Pan 2007, que custou R$3,7 bilhões aos cofres públicos (municipal, estadual e federal). quase 800% mais que o previsto.  além disso, foram muitas as denúncias de isolamento da população pobre e do caráter elitista do evento. pior: a realização da Olimpíada no Rio tem tudo para amplificar os efeitos de segregação sócio-espacial. como já se denunciou por aí, em ocasião da visita do Comitê Olímpico Internacional ao Rio, uma operação de “limpeza da cidade” (ou seja, remoção de mendigos e moradores de rua) foi realizada e flagrada pela imprensa.

é difícil fazer qualquer prognóstico, já que a política(gem) é o carro-chefe do projeto milionário do evento.

e por falar em politicagem, registro aqui que, na minha opinião, a escolha da sede era um jogo de cartas-marcadas.  a questão política prevalecera. mas assumo o caráter especulatório das minhas afirmações, com o intuito de isentá-las da acusação de serem levianas. mas custa muito caro a mim acreditar na transparência e na inocência da votação de sedes olímpicas. Madrid que o diga.

não nos custa lembrar neste tópico que Carlos Arthur Nuzman, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), tem um histórico controverso: além dos problemas do Pan, Nuzman fora eleito para seu quarto mandato à frente do Comitê de maneira pouco clara, na “surdina”. O país padece de uma sindrome tirânica dos diplomatas esportivos. Tirania que tem seu símbolo-mor no presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira.

em tempo, podemos relacionar todo o alvoroço causado pela vitória do Rio de Janeiro às eleições presidenciais que se aproximam. a jogada certamente fará parte do evento de celebração da ilusão democrática em 2010.

o jogo político abrange um universo enorme, passando pelo Comitê Olímpico Internacional, o Brasileiro, a política do Governo Lula e, para além do factual,  todo um projeto político nacional. o preço dessa política desenvolvimentista, no entanto, pode ser muito caro para o povo. primeiro porque este precisa de livros, remédios e outras melhoras de vida de primeira instância. segundo porque são os que serão isolados e não terão cadeira nos palcos luxuosos dos jogos olímpicos.

afinal, qual o preço desse desenvolvimento? e mais, qual a necessidade maior do povo brasileiro? é necessário e positivo que se realizem megaeventos bilionários para que os detentores do poder (Estado e mercado) atentem para os problemas urbanos e populares (que já atingem proporções escandalosas) no país?

decerto, são jogos com regras bem definidas e cartas marcadas, cheio de trapaças e, em 2016, canos fumegantes.

Felipe Bianchi

11 de setembro de 1973

11 set

[nota: no vídeo está a trilha sonora para o post, ou seja, é recomendável que dê play para a leitura]

Quebrando a recente tradição de guardar certo tempo entre uma postagem e outra, acho coerente da minha parte prestar tributo a uma data, um símbolo, um marco, uma tragédia, uma fagulha de esperança no coração de todos os homens que anseiam caminhar pelas alamedas de uma sociedade livre, um homem: Salvador Allende.

Minha comoção e paixão por esta história em particular se dá pela força com que esta me atingiu na minha juventude. Meus primeiros passos na esquerda, quando me dediquei ao estudo de tudo que a dizia respeito, por meio de livros, filmes e pesquisa, foi marcado pela história de la Unidad Popular e a grande figura de Salvador Allende.  Mais que um presidente. Muito mais que um estadista. Um verdadeiro opositor. Um ser humano de fibra e, como tão raro se faz nos dias de hoje, de um coração e alma maiores do que é possível suportar.

Como não escrevi nenhum texto dessa vez, minha homenagem se fará por meio de vídeos e fotografias que retratam esse capítulo trágico, que enche de lágrimas os olhos deste que escreve, mas que ao mesmo tempo inspira e nos dá gana. Nos proíbe de pensar na desistência.

São histórias como as de Salvador Allende que fazem nossos corações revolucionários permanecerem inquietos. Nunca estáticos. Sempre revoltosos.

Estes corações, cheios de paixão e loucura, serão a tumba do fascismo.

la unidad popular

la unidad popular

Último discurso de Salvador Allende

9:10 A.M.

Seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Postales y Radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura sino decepción Que sean ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron: soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino, que se ha autodesignado comandante de la Armada, más el señor Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al Gobierno, y que también se ha autodenominado Director General de carabineros. Ante estos hechos sólo me cabe decir a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

victor jara, músico popular revolucionário e allende: homens do povo assassinados pela ditadura chilena

victor jara, músico popular revolucionário e allende: homens do povo assassinados pela ditadura chilena


Trabajadores de mi Patria: quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley, y así lo hizo. En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la abuela que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la Patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clases para defender también las ventajas de una sociedad capitalista de unos pocos.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente; en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo lo oleoductos y los gaseoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder. Estaban comprometidos. La historia los juzgará.

11 de septiembre de 1973

11 de septiembre de 1973

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la Patria.

El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi Patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano, tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.


El pueblo debe estar alerta y vigilante. No debe dejarse provocar, ni debe dejarse masacrar, pero también debe defender sus conquistas. Debe defender el derecho a construir con su esfuerzo una vida digna y mejor.

Sobre a rua

10 set

cidade escura

então o professor de Semiótica Textual e Visual pediu para nós lermos um trecho do livro “João do Rio”, que falava sobre o conceito de rua, e desafiou-nos a (d)escrever a rua.  Uma rua qualquer, de nossa escolha.

acabei passando uma tarde de quarta-feira muito agradável mergulhando no  texto do livro e recomendo que os leitores deste blog que tiverem o gosto pela boa literatura ou interesse pela conceituação de “rua” que acessem o link para lê-lo também.

rua (paris, fr)

pois então decidi escrever um texto que não descrevesse fisicamente uma rua, pura e simplesmente. queria escrever sobre essa relação antropológica das ruas na cidade, ainda numa perspectiva sociológico e política até certo ponto. acabei por pegar um caso sério de uma rua da minha cidade natal, São Carlos (SP).

resolvi, então, postar o texto no covil de minha guerra espiritual – este blog.

sem mais delongas, visto que já me arrependi de uma introdução tão extensa, o texto.

Rua do mérito e da falta deste: a da tortura e a da libertação

Felipe Bianchi dos Santos

O simbolismo é, há milênios, uma característica forte da composição antropológica, cultural e estética da sociedade como um todo. Os signos revelam condições para além da superfície da realidade humana, trazendo à tona fatos e evidências do que  foi, se pensou, se viveu e se escreveu em páginas não-publicadas da história. É mais ou menos assim com o nome das ruas, essas entidades vivas e  “almadas”.  Quantas personalidades são percorridas por uma multidão desatenta, quantos seres humanos que alguma ação realizaram para ter o status refletido numa placa de rua não são pronunciados por essa mesma massa as vezes transformando o nome próprio em substantivo comum?

A meritocracia instaurada pelo poder público na tarefa de dar nome às ruas é nada mais que um aparelho burocrático que espelha a ordem socioeconômica, em termos hierárquicos, da sociedade em que a rua está. Ah, a rua. Caminho que origina tudo e finda tantas outras coisas e eventos. A rua, que expressa emoções e emana sensações, que é testemunha ocular, casi-onisciente da história humana local, rotulada por um nome qualquer de figura política influente no lugar, seja da Prefeitura, da nobreza, dos tempos de República ou de colônia. A velha mania de homenagear homens públicos, que raramente envergam, na história que outras ruas viram no passado, as glórias que a História Oficial degenera para premiar-lhes com os louros do reconhecimento social estampado, por exemplo, na placa da esquina do quarteirão ou na lista telefônica.

Foi assim que me chamou a atenção o caso de uma rua da cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, que por sinal é minha terra natal donde vivi quase 19 anos ininterruptos de minha vida. Pois bem, à rua. Na Vila Marina, zona norte da cidade que se situa entre a tranqüilidade do interior e a modernidade da metrópole, havia uma rua comum. Comum porque seus moradores nada tinham de especial com ela que outros moradores de outras ruas não tenham com as suas; não sofrem mais nem choram menos que estes as misérias e angústias da vida, nem festejam mais ou celebram menos as trapaceadas que se dá na vida para encontrar força pra sorrir sinceramente. Mas diferente de outras ruas na simbologia. Trata-se da Rua Sergio Fernando Paranhos Fleury, ou seja, a Rua da Tortura. A rua que leva em seu peito e bandeira o delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) dos “anos de chuva” da história recente do país. O nome do que matou Marighella e torturou centenas de sonhadores de uma possível democracia e justiça social. Como caminhar livre pelas alamedas desta rua sangrenta?

Por muitos anos o conservadorismo cínico que infestou o poder público da cidade manteve, como se nada estivesse fora de lugar, o nome do torturador lá. A atitude transpassa a barreira do mau gosto, podendo ser, com razão, compreendida como ofensa a própria integridade humana desejosa de liberdade.

Pouco fez o povo para mudar essa historia. Provavelmente ignorante quanto a essa parte obscura da história política nacional (obscura no sentido de conhecimento e transparência pública, pois considero dubitável dizer que já houve alguma época clara, cristalina e brilhante na história política nacional), porém inocente e devidamente interpretado como vítima, ainda que passiva por vezes, das trevas da educação e da informação de acesso massivo no país.

Já horas depois de estourar o prazo do bom senso pra mudar a história, à luz do dia 12 de maio de 2009, alguns vereadores, impulsionados por abaixo-assinados e manifestações no meio acadêmico (tendo seu seio na Universidade Federal de São Carlos, situada a poucos quarteirões da rua do descaso) decidem por virar essa página e tirar o título de dono da rua das mãos ensangüentadas e brutas de Fleury do Esquadrão da Morte. Como está em pauta a busca pela “memória e verdade” da época negra da Ditadura Militar no Brasil, tiveram este grupo microrrevolucionário encabeçados por políticos do “novo” Partido dos Trabalhadores a feliz e oportuna idéia de homenagear Dom Hélder Câmara, figura importante na luta pela democracia e liberdade do povo. Bispo católico que se despiu de vestimentas conservadoras e empunhou os estandartes libertários dentro da Igreja, o nordestino foi um dos grandes defensores dos direitos humanos durante os “anos de chuva”.

Tudo muito bem, cerimônia de caráter político realizada, nome da rua trocado e as nuvens negras da história que rondavam a Vila Marina se esfumaçam e somem no horizonte.  Agora a homenagem ao bispo – que chamaram santo por dar comida aos pobres e comunista por questionar o porquê da pobreza – cai melhor até para os não-religiosos que reconhecem que, quando o assunto é nome de rua com nome próprio de gente, que seja ao menos digno e merecedor por parte do povo que as vive, as habita e as ama, não dos burocratas das plaquetas azuis pregadas ao  alto das esquinas da cidade.

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião. Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. O mesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. (João do Rio)

A indissociabilidade entre arte e política – PARTE III

27 ago

bom, como prometido no post anterior (pré-requisito para a leitura a seguir), aqui está a terceira parte da discussão acerca da relação entre arte e política (que aqui analiso como indissociáveis).

minha insatisfação com apenas duas partes se dá pelo fato de eu ter deixado muito em aberto a possibilidade de interpretação da discussão no sentido de aspectos da produção artística mais voltados como o estímulo, incentivo, financiamento, quando na verdade eu queria dizer mais é de um contexto maior (político, social, econômico, etc).

isso significa que deve ser levado em consideração não só o produto, mas a motivação da produção, o seu significado, as suas interpretações. e não só isso. faz parte da análise da política na arte o material com que se produz: de onde vem, quanto custa, quem comercializa e lucra?

arte é política, pois envolve uma gama interminável de fatores influentes, confluentes e resultantes.

e no auge da pós-modernidade e do capitalismo pós-industrial, arrisco defender alguns ideais do Construtivismo Russo, que objetivava não a arte política, mas a socialização da arte; esta seria presente no cotidiano, reconstruindo o modo de vida e  sendo agente de transformação social (nota: o movimento possuía muitos outros aspectos além dos explicitados aqui).

Lestinitsa (Escada, 1930), de Alexander Rodchenko

Lestinitsa (Escada, 1930), de Alexander Rodchenko

Alexander Rodchenko Books 1924

"Books" (1924), de Alexander Rodchenko

nessa perspectiva, sugiro a acepção do termo “arte” como qualquer objeto que possa ser interpretado como tal (manifestações cotidianas no geral), mesmo tendo em mente o alto grau de subjetividade empenhado nessas interpretações e, por conseguinte, diferentes visões.

Ginástica matutina no telhado de um Hostel de estudantes em Lefortovo, 1932, de Alexander Rodchenko

Ginástica matutina no telhado de um Hostel de estudantes em Lefortovo, 1932, de Alexander Rodchenko

Fotomontagem para a Revista Young Guard, 1924, de Alexander Rodchenko

Fotomontagem para a Revista Young Guard, 1924, de Alexander Rodchenko

creio que, com essa parte adicional, preenchi a lacuna que ficou nas duas primeiras.

se é possível apontar uma conclusão para isso tudo, é que, além de a arte estar não somente nos objetos mas também nos olhos de quem a vê, esta só será compreendida totalmente se analisada em diversos aspectos, sendo fundamental entender seu contexto. só a contemplação do objeto não é, certamente, sua digestão e entendimento.

“Para vocês, o cinema é um espetáculo. Para mim, é quase um meio de compreender o mundo.”Maiakovski, 1922

A indissociabilidade entre arte e política

25 ago

começo o segundo post do blog escrevendo sobre um tema que há muito tempo venho pensando e discutindo por aí. seria possível pensar arte alheia à política?

será que arte e política somente se cruzam na realização da arte política? (ex. pôsteres soviéticos, pôsteres da guerra civil espanhola, arte e propaganda política na guerra civil espanhola, arte sociopolítica, kalvellido)

cartaz da guerra civil espanhola

cartaz da guerra civil espanhola

a opinião do escritor deste blog é definitivamente que não.

a política está para a arte como está para qualquer outra instância da vida.

separarei este post em duas partes. A primeira será voltada para um lado mais prático e ilustrativo, com exemplos históricos e conceituações básicas. Já na segunda tentarei expor minhas impressões sociológicas e filosóficas a respeito do tema que me proponho discutir neste post.

nota: em breve escreverei uma terceira parte, tratando de outras questões que considero essenciais na discussão.

Parte I

partindo de um ponto de vista diacrônico e colocando em contextos históricos, citaria brevemente dois exemplos bem elucidativos para chegar aonde pretendo: a arte produzida dentro da política do mecenato (antiguidade greco-romana e renascimento) e os retratos comuns de indivíduos das nobrezas européias em obras de artistas do mais alto escalão nas suas respectivas épocas.

Papa Inocencio X, de Diego Velásquez

Papa Inocencio X, de Diego Velásquez

podemos pensar o  Romantismo, o Realismo, o Expressionismo… até movimentos mais próximos da nossa geração como o Pop Art, o Surrealismo e outros movimentos com fortes vínculos políticos, que muitas vezes não consistia na reprodução da militância, mas nas motivações, nos contextos de surgimento dos movimentos e nas expressões geracionais e culturais de um mundo que parecia começar a experimentar os efeitos globalizatórios.

da contemporaneidade, podemos nos referir ao graffiti como maior expressão artística alternativa, calcada na contra-cultura e no underground, e o chamado “neoexpressionismo” (ver foto abaixo), que são particularmente meus favoritos, além do stencil e dos stickers.

por carlos dias

arte por carlos dias

Parte II

eu mesmo sou um crítico ferrenho de estereótipos artísticos, metidos a intelectuais e críticos de arte de buteco e afins (ainda mais vivenciando o meio universitário…), portanto estou enjoado de ter escrito toda a primeira parte. sim, também sinto uma leve náusea.

para entretenimento, relaxamento e lazer, sugiro um trecho do “Noivo neurótico, noiva nervosa” (Woody Allen) para descontrair.

retomando…

esses dias estava passeando com uma amiga que faz Teatro e discutíamos sobre a falta de incentivo e a desvalorização (e a consequente “inevitável” elitização) deste tipo de atividade. uma pena, não é mesmo? que maravilha seria a volta do teatro popular! o interesse do povo pelas peças em praça pública! teatros lotados em dias de semana e também nos finais!

em off: em ouro preto e mariana estou tendo a oportunidade de experimentar o Teatro (como espectador) em diversas ocasiões e, acreditem, cada vez mais me apaixono por esse tipo de experiência. recomendadíssimo!

de volta: por que meus devaneios sobre o sucesso do Teatro não se tornam realidade? por que as novelas são o produto que lidera a preferência do povo e o Teatro sequer compete com estas?

política.

ou a falta dela.

(aqui cabe não só esse questionamento referente ao teatro, mas à música, ao cinema, à pintura e a todo objeto “construtivista” em que houver [interpretação de] arte)

fato é que a arte depende da política para se manifestar, para ser produzida, para ser fomentada, para ser criada e para ser pensada.

e a política, enquanto ferramenta de manutenção da ordem vigente (no caso da sociedade do capital), trabalhará no sentido de controlar e usar a arte para os fins que desejar, nem que isso custe (e custa) a banalização e a mercantilização esvaziante da mesma.

indissociáveis, a arte e a política estão ligados muito mais além do que pensamos, se o fizermos superficialmente. E se pensarmos essa relação como algo distante e frágil, corremos o risco de não captarmos o real significado das mensagens, dos símbolos e das representações. Faz-se necessário, também, uma leitura política do objeto artístico. (Semiótica parece ser um bom tema a ser estudado, nesse caso)

“Temos a Arte para não morrer da verdade” (F. Nietzsche)