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o retorno.

9 ago

a guerra espiritual em palavras, áudio e imagem está de volta após um breve período de hibernação.

muitas razões afastaram este escritor de sua cria entre dezembro de 2009 e julho de 2010, porém em agosto as máquinas voltam a todo vapor.

(anti) política, (contra) cultura e opiniões para dar, não para vender. a guerra espiritual, em novo formato, como prometido.

clima de eleições, decadência e morte ideológica como ideologia vigente, reificação/coisificação de tudo e todos… a garrafa, o pano e o combustível já estão em mãos.

Artigo sobre a piada (de mau gosto) democrática do sistema político brasileiro

4 nov

o seguinte texto é na verdade um artigo produzido por mim para as aulas de “Redação em Jornalismo II”, ministradas pela professora Adriana Bravin, na Universidade Federal de Ouro Preto.

como faz tempo que não posto aqui – e tenho tido pouco tempo, na verdade, para atualizar o blog -, publicarei o artigo que produzi na Universidade.

Democracia à venda, compra e permuta

por Felipe Bianchi dos Santos

Se alguém, por mais ingênuo que seja, pensa que as eleições só começam no ano que ocorrerão, certamente não tem acompanhado o flamejante noticiário político do país. As cartas eleitorais já estão sendo dadas e, infelizmente, o repetitivo quadro, que persiste dominando o sistema político brasileiro, vai se firmando novamente. De um lado, o PT, defendendo a continuidade de um projeto conciliador, longe de suas tradições de esquerda. Do outro, o PSDB, tentando recuperar o poder que os adversários conquistaram. No meio, esbarrando uns nos outros, a centena de legendas e siglas que formam uma interminável corrente que une, muito além de “ideais” e “posições”, a manutenção do poder político.

O dito de Lula, que tanto causou polêmica nessa semana, de que “se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão” parece piada. Mas não é. Afora indignações de setores religiosos ou qualquer reação do tipo, podemos afirmar e nos preocupar com a realista e sincera metáfora do presidente.

O governo e seus representantes calcam cada vez mais seu discurso em princípios democráticos, vangloriando-se de o país, que ainda é jovem no cenário histórico global, estar alcançando um estágio maduro de sua democracia. O curioso é que o Senado enfrentou recentemente  uma turbulenta crise institucional, reverberada principalmente pelo caso Sarney. Ademais, a alternância de velhos nomes nos cargos políticos, como o de Fernando Collor e do próprio Sarney, agride o argumento democrático. Nas eleições, que são consideradas algo semelhante a um “ritual da democracia”, as contradições são escancaradas: a disparidade de tempo no horário de propaganda eleitoral de partido para partido, a necessidade de patrocínios empresariais como parte do jogo eleitoreiro e principalmente a obrigatoriedade do voto.

Além disso, mesmo que não esteja na pauta do debate público, o próprio modelo eleitoral presidencialista, de uma democracia representativa ao invés de participativa, deve ser posto em xeque. Cada vez mais a máquina pública é apropriada pelos governantes, irreconhecíveis em relação a suas antigas e desbotadas bandeiras, e o estado de bem-estar social minimizado (à grosso modo: os pesados impostos não são revertidos em benfeitorias sociais para as quais são destinados).

Falando em bandeiras desbotadas, e inegável a perda de identidade dos partidos brasieliros. O melhor exemplo é o PT. O partido vive clima de eleição presidencial interna, que ocorre no fim de novembro, e a disputa é óbvia: os que defendem o “novo PT” versus os que desejam resgatar o espírito revolucionário do partido. O PMDB esbarra nas divergências quanto ao lançamento de candidatura própria ou aliança com o PT. Já o PSDB precisa definir sua tática através da escolha de Serra ou Aécio. Mas, no plano geral do confuso pluripartidarismo canarinho, todos correm atrás da garantia do poder político. Custe o que custar.

11 de setembro de 1973

11 set

[nota: no vídeo está a trilha sonora para o post, ou seja, é recomendável que dê play para a leitura]

Quebrando a recente tradição de guardar certo tempo entre uma postagem e outra, acho coerente da minha parte prestar tributo a uma data, um símbolo, um marco, uma tragédia, uma fagulha de esperança no coração de todos os homens que anseiam caminhar pelas alamedas de uma sociedade livre, um homem: Salvador Allende.

Minha comoção e paixão por esta história em particular se dá pela força com que esta me atingiu na minha juventude. Meus primeiros passos na esquerda, quando me dediquei ao estudo de tudo que a dizia respeito, por meio de livros, filmes e pesquisa, foi marcado pela história de la Unidad Popular e a grande figura de Salvador Allende.  Mais que um presidente. Muito mais que um estadista. Um verdadeiro opositor. Um ser humano de fibra e, como tão raro se faz nos dias de hoje, de um coração e alma maiores do que é possível suportar.

Como não escrevi nenhum texto dessa vez, minha homenagem se fará por meio de vídeos e fotografias que retratam esse capítulo trágico, que enche de lágrimas os olhos deste que escreve, mas que ao mesmo tempo inspira e nos dá gana. Nos proíbe de pensar na desistência.

São histórias como as de Salvador Allende que fazem nossos corações revolucionários permanecerem inquietos. Nunca estáticos. Sempre revoltosos.

Estes corações, cheios de paixão e loucura, serão a tumba do fascismo.

la unidad popular

la unidad popular

Último discurso de Salvador Allende

9:10 A.M.

Seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Postales y Radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura sino decepción Que sean ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron: soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino, que se ha autodesignado comandante de la Armada, más el señor Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al Gobierno, y que también se ha autodenominado Director General de carabineros. Ante estos hechos sólo me cabe decir a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

victor jara, músico popular revolucionário e allende: homens do povo assassinados pela ditadura chilena

victor jara, músico popular revolucionário e allende: homens do povo assassinados pela ditadura chilena


Trabajadores de mi Patria: quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley, y así lo hizo. En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la abuela que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la Patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clases para defender también las ventajas de una sociedad capitalista de unos pocos.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente; en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo lo oleoductos y los gaseoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder. Estaban comprometidos. La historia los juzgará.

11 de septiembre de 1973

11 de septiembre de 1973

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la Patria.

El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi Patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano, tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.


El pueblo debe estar alerta y vigilante. No debe dejarse provocar, ni debe dejarse masacrar, pero también debe defender sus conquistas. Debe defender el derecho a construir con su esfuerzo una vida digna y mejor.

Sobre a rua

10 set

cidade escura

então o professor de Semiótica Textual e Visual pediu para nós lermos um trecho do livro “João do Rio”, que falava sobre o conceito de rua, e desafiou-nos a (d)escrever a rua.  Uma rua qualquer, de nossa escolha.

acabei passando uma tarde de quarta-feira muito agradável mergulhando no  texto do livro e recomendo que os leitores deste blog que tiverem o gosto pela boa literatura ou interesse pela conceituação de “rua” que acessem o link para lê-lo também.

rua (paris, fr)

pois então decidi escrever um texto que não descrevesse fisicamente uma rua, pura e simplesmente. queria escrever sobre essa relação antropológica das ruas na cidade, ainda numa perspectiva sociológico e política até certo ponto. acabei por pegar um caso sério de uma rua da minha cidade natal, São Carlos (SP).

resolvi, então, postar o texto no covil de minha guerra espiritual – este blog.

sem mais delongas, visto que já me arrependi de uma introdução tão extensa, o texto.

Rua do mérito e da falta deste: a da tortura e a da libertação

Felipe Bianchi dos Santos

O simbolismo é, há milênios, uma característica forte da composição antropológica, cultural e estética da sociedade como um todo. Os signos revelam condições para além da superfície da realidade humana, trazendo à tona fatos e evidências do que  foi, se pensou, se viveu e se escreveu em páginas não-publicadas da história. É mais ou menos assim com o nome das ruas, essas entidades vivas e  “almadas”.  Quantas personalidades são percorridas por uma multidão desatenta, quantos seres humanos que alguma ação realizaram para ter o status refletido numa placa de rua não são pronunciados por essa mesma massa as vezes transformando o nome próprio em substantivo comum?

A meritocracia instaurada pelo poder público na tarefa de dar nome às ruas é nada mais que um aparelho burocrático que espelha a ordem socioeconômica, em termos hierárquicos, da sociedade em que a rua está. Ah, a rua. Caminho que origina tudo e finda tantas outras coisas e eventos. A rua, que expressa emoções e emana sensações, que é testemunha ocular, casi-onisciente da história humana local, rotulada por um nome qualquer de figura política influente no lugar, seja da Prefeitura, da nobreza, dos tempos de República ou de colônia. A velha mania de homenagear homens públicos, que raramente envergam, na história que outras ruas viram no passado, as glórias que a História Oficial degenera para premiar-lhes com os louros do reconhecimento social estampado, por exemplo, na placa da esquina do quarteirão ou na lista telefônica.

Foi assim que me chamou a atenção o caso de uma rua da cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, que por sinal é minha terra natal donde vivi quase 19 anos ininterruptos de minha vida. Pois bem, à rua. Na Vila Marina, zona norte da cidade que se situa entre a tranqüilidade do interior e a modernidade da metrópole, havia uma rua comum. Comum porque seus moradores nada tinham de especial com ela que outros moradores de outras ruas não tenham com as suas; não sofrem mais nem choram menos que estes as misérias e angústias da vida, nem festejam mais ou celebram menos as trapaceadas que se dá na vida para encontrar força pra sorrir sinceramente. Mas diferente de outras ruas na simbologia. Trata-se da Rua Sergio Fernando Paranhos Fleury, ou seja, a Rua da Tortura. A rua que leva em seu peito e bandeira o delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) dos “anos de chuva” da história recente do país. O nome do que matou Marighella e torturou centenas de sonhadores de uma possível democracia e justiça social. Como caminhar livre pelas alamedas desta rua sangrenta?

Por muitos anos o conservadorismo cínico que infestou o poder público da cidade manteve, como se nada estivesse fora de lugar, o nome do torturador lá. A atitude transpassa a barreira do mau gosto, podendo ser, com razão, compreendida como ofensa a própria integridade humana desejosa de liberdade.

Pouco fez o povo para mudar essa historia. Provavelmente ignorante quanto a essa parte obscura da história política nacional (obscura no sentido de conhecimento e transparência pública, pois considero dubitável dizer que já houve alguma época clara, cristalina e brilhante na história política nacional), porém inocente e devidamente interpretado como vítima, ainda que passiva por vezes, das trevas da educação e da informação de acesso massivo no país.

Já horas depois de estourar o prazo do bom senso pra mudar a história, à luz do dia 12 de maio de 2009, alguns vereadores, impulsionados por abaixo-assinados e manifestações no meio acadêmico (tendo seu seio na Universidade Federal de São Carlos, situada a poucos quarteirões da rua do descaso) decidem por virar essa página e tirar o título de dono da rua das mãos ensangüentadas e brutas de Fleury do Esquadrão da Morte. Como está em pauta a busca pela “memória e verdade” da época negra da Ditadura Militar no Brasil, tiveram este grupo microrrevolucionário encabeçados por políticos do “novo” Partido dos Trabalhadores a feliz e oportuna idéia de homenagear Dom Hélder Câmara, figura importante na luta pela democracia e liberdade do povo. Bispo católico que se despiu de vestimentas conservadoras e empunhou os estandartes libertários dentro da Igreja, o nordestino foi um dos grandes defensores dos direitos humanos durante os “anos de chuva”.

Tudo muito bem, cerimônia de caráter político realizada, nome da rua trocado e as nuvens negras da história que rondavam a Vila Marina se esfumaçam e somem no horizonte.  Agora a homenagem ao bispo – que chamaram santo por dar comida aos pobres e comunista por questionar o porquê da pobreza – cai melhor até para os não-religiosos que reconhecem que, quando o assunto é nome de rua com nome próprio de gente, que seja ao menos digno e merecedor por parte do povo que as vive, as habita e as ama, não dos burocratas das plaquetas azuis pregadas ao  alto das esquinas da cidade.

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião. Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. O mesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. (João do Rio)