A indissociabilidade entre arte e política

25 ago

começo o segundo post do blog escrevendo sobre um tema que há muito tempo venho pensando e discutindo por aí. seria possível pensar arte alheia à política?

será que arte e política somente se cruzam na realização da arte política? (ex. pôsteres soviéticos, pôsteres da guerra civil espanhola, arte e propaganda política na guerra civil espanhola, arte sociopolítica, kalvellido)

cartaz da guerra civil espanhola

cartaz da guerra civil espanhola

a opinião do escritor deste blog é definitivamente que não.

a política está para a arte como está para qualquer outra instância da vida.

separarei este post em duas partes. A primeira será voltada para um lado mais prático e ilustrativo, com exemplos históricos e conceituações básicas. Já na segunda tentarei expor minhas impressões sociológicas e filosóficas a respeito do tema que me proponho discutir neste post.

nota: em breve escreverei uma terceira parte, tratando de outras questões que considero essenciais na discussão.

Parte I

partindo de um ponto de vista diacrônico e colocando em contextos históricos, citaria brevemente dois exemplos bem elucidativos para chegar aonde pretendo: a arte produzida dentro da política do mecenato (antiguidade greco-romana e renascimento) e os retratos comuns de indivíduos das nobrezas européias em obras de artistas do mais alto escalão nas suas respectivas épocas.

Papa Inocencio X, de Diego Velásquez

Papa Inocencio X, de Diego Velásquez

podemos pensar o  Romantismo, o Realismo, o Expressionismo… até movimentos mais próximos da nossa geração como o Pop Art, o Surrealismo e outros movimentos com fortes vínculos políticos, que muitas vezes não consistia na reprodução da militância, mas nas motivações, nos contextos de surgimento dos movimentos e nas expressões geracionais e culturais de um mundo que parecia começar a experimentar os efeitos globalizatórios.

da contemporaneidade, podemos nos referir ao graffiti como maior expressão artística alternativa, calcada na contra-cultura e no underground, e o chamado “neoexpressionismo” (ver foto abaixo), que são particularmente meus favoritos, além do stencil e dos stickers.

por carlos dias

arte por carlos dias

Parte II

eu mesmo sou um crítico ferrenho de estereótipos artísticos, metidos a intelectuais e críticos de arte de buteco e afins (ainda mais vivenciando o meio universitário…), portanto estou enjoado de ter escrito toda a primeira parte. sim, também sinto uma leve náusea.

para entretenimento, relaxamento e lazer, sugiro um trecho do “Noivo neurótico, noiva nervosa” (Woody Allen) para descontrair.

retomando…

esses dias estava passeando com uma amiga que faz Teatro e discutíamos sobre a falta de incentivo e a desvalorização (e a consequente “inevitável” elitização) deste tipo de atividade. uma pena, não é mesmo? que maravilha seria a volta do teatro popular! o interesse do povo pelas peças em praça pública! teatros lotados em dias de semana e também nos finais!

em off: em ouro preto e mariana estou tendo a oportunidade de experimentar o Teatro (como espectador) em diversas ocasiões e, acreditem, cada vez mais me apaixono por esse tipo de experiência. recomendadíssimo!

de volta: por que meus devaneios sobre o sucesso do Teatro não se tornam realidade? por que as novelas são o produto que lidera a preferência do povo e o Teatro sequer compete com estas?

política.

ou a falta dela.

(aqui cabe não só esse questionamento referente ao teatro, mas à música, ao cinema, à pintura e a todo objeto “construtivista” em que houver [interpretação de] arte)

fato é que a arte depende da política para se manifestar, para ser produzida, para ser fomentada, para ser criada e para ser pensada.

e a política, enquanto ferramenta de manutenção da ordem vigente (no caso da sociedade do capital), trabalhará no sentido de controlar e usar a arte para os fins que desejar, nem que isso custe (e custa) a banalização e a mercantilização esvaziante da mesma.

indissociáveis, a arte e a política estão ligados muito mais além do que pensamos, se o fizermos superficialmente. E se pensarmos essa relação como algo distante e frágil, corremos o risco de não captarmos o real significado das mensagens, dos símbolos e das representações. Faz-se necessário, também, uma leitura política do objeto artístico. (Semiótica parece ser um bom tema a ser estudado, nesse caso)

“Temos a Arte para não morrer da verdade” (F. Nietzsche)

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13 Respostas to “A indissociabilidade entre arte e política”

  1. Diego 25/08/2009 às 3:03 #

    Complexo isso, mas eu sei muito bem porque vivo disso e to no meio da coisa, realmente, a politica muitas vezes, pra não dizer todas, acaba se tornando o principal vetor da história, porém, creio que há saída, raramente vejo isso na música, posso citar como exemplo uma roda de choro, pura arte aberta para quem estiver afim, de tocar, ouvir, sem compromisso nem objetivo, apenas apreciar a música e vivenciar momentos de prazer em meio a arte, conheço governos que apoiam isso sem realmente se preocupar em dizer ‘viu, apoiamos a cultura’, apenas apoiam dando condições e abrindo seus espaços, esse é um exemplo do que eu vivo, talvez existam outros mais por ai, mas infelizmente estes são poucos.

  2. felipebianchi 25/08/2009 às 10:04 #

    exatamente diego. escreverei em breve uma terceira parte, porque apesar de eu considerar muito valiosa essa colocação que você fez, não queria focar no incentivo do governo, em políticas de incentivo e tal. queria mais dizer como essa arte é produzida num contexto político e como ela reflete política. no caso do choro, precisa dizer alguma coisa?

  3. Diego 25/08/2009 às 13:19 #

    do choro nem tanto, mas o samba perfeitamente ! (haha, lembrei da propaganda das havaianas)

  4. felipebianchi 25/08/2009 às 13:26 #

    mas qual a motivação do choro? qual a temática?
    falar da vida na periferia, da saudosa maloca, do morro da casa verde, etc.
    isso é política.
    a realidade social construída e assimilada pelos artistas reflete a conjuntura política de dado espaço-tempo e isso não é algo que atinge só artistas que falam dessa realidade. música comercial é política, as letras estão num contexto político também (no Brasil, por exemplo, o mito do ser “apolítico”, que acaba se desvirtuando de qualquer compromisso sociopolítico e tal) e acaba se interessando por outros temas na vida cotidiana. isso, claro, como frutos de uma determinada política.
    acho que isso fica bem claro se analisarmos a questão na sociedade do capital.

  5. Mars. 25/08/2009 às 15:37 #

    O patrocínio da alienação é muito mais valioso. Essa é minha resposta à uma de suas perguntas.

    Eu queria poder dissertar melhor sobre, mas meu coração está doendo.

    Um beijo.

  6. Lázaro 25/08/2009 às 17:46 #

    Achei muito interessante os pontos de vista por você apresentado Felipe, e ao final, farei extensas considerações.
    abraços

  7. tabataromero 26/08/2009 às 17:49 #

    Como escreve bem esse menino. Relacionar arte e política com tantos detalhes, de fato, é para poucos. Te admiro e tenho orgulho!

  8. Diego 27/08/2009 às 0:30 #

    então, justamente por isso que eu disse, do samba sim, essas músicas que você citou são samba, o choro não tem letra, alguns choros são letrados bem depois de suas composições, é naturalmente instrumental, e as letras mais tarde vem falar de amor geralmente, ele é originado da mistura da polca européia com o ritmo africano, ou seja, foi ‘criado’ no fim do século XIX, quando a sociedade começava a se misturar, chama choro devido as ‘baixarias’ do violão que dão um ar de tristeza pra harmonia.

    mas enfim, como disse, o samba tem uma origem quase igual, a idéia é a mesma, mas tem muito mais o lance da pegada de batuques africanos, ai sim, com letras que geralmente falam da sociedade, por isso o samba de fato é voltado pra politica, assim como pro amor e tudo mais, o choro não chega a expressar isso nas suas composições

    • felipebianchi 27/08/2009 às 8:39 #

      bom, nesse caso não vou levar a discussão adiante pois admito minha falta de conhecimento do tema (choro), mas é que na hora pensei no Adoniran (risos).
      mas entendi sua colocação e mantenho o que disse acima, só que ao invés do choro, recontextualizando para o samba.

  9. Vlad 27/08/2009 às 10:31 #

    No caso das novelas não penso ser tão politico o problema (porque existir cerca de 15 novelas diarias numa tv aberta é um problema…)

    As emissoras subestimam nossa inteligência, acham que se colocarem uma programação de maiis nível, mais cultural, não vão conseguir anunciante$ e nem telespectadore$. No minimo podiam fazer uma novela baseada em um romance do jorge amado sei lá, não isso também não deve render, que reine a baixaria, afinal acham q é disso que o povo gosta…Ótimo video, permanece a dúviida: Porque diabos Annie Hall virou “Noivo neurótico, noiva nervosa” no Brasil ????

  10. Vlad 27/08/2009 às 10:50 #

    Sobre a pergunta inicial, acho sim que pode existir arte alheia a pollitica. Depende também muito da maneira como vc vai querer interpretar isso, pois eu podia falar, a melhor banda de todos os tempos é o Led Zeppellin(e é) e a maioria de suas canções não tem cunho politico. Se você quiser mergulhar profundo pode dizer que o Led tem raízes no blues e que tais músicas vinham do sentimentos de negros oprimidos e explorados durante princiipalmente a colheita de algodão eque, portanto suas músicas não são alheias a politica. Mas digo que isso é forcação de barra e assim como muitas músicas do Led varias formas belas de artes surgiram alheias a politica e não as considero melhores nem piores. Em tempo saudosa maloca é uma música com fortissimo apelo político e a letra fala por si mas o Adoniram também fez varias músicas apoliticas (samba do arnesto por exemplo e é otima)

    • felipebianchi 27/08/2009 às 11:55 #

      mas Vlad, a época e o lugar do Led Zeppelin ter acontecido influem nisso, o meio em que eles viviam. isso é política. o que levou uma geração de jovens mergulharem de cabeça no rock dos anos 70? isso tem muito a ver com o modo de vida da época, as perspectivas da juventude, o desencanto com algumas idéias científicas, guerras, etc.
      samba do arnesto é uma canção política sim. como não é política uma canção cantada no dialeto popular totalmente informal, refletindo o cotidiano de pessoas como o “Arnesto” (risos), que morava no Brás e organizou um samba, mas furou. Acho que é justamente essa a proposta do tópico: propor esse desmembramento analítico dos objetos e encontrar seus aspectos e razão políticos.

  11. JuniorMatos 15/04/2010 às 20:49 #

    Gostaria de te convidar para partipar de uma rede de conteúdo, caso tenha interesse me adiciona no msn ocasional81@yahoo.com.br ou me manda um email. Abs, Matos.

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